sexta-feira, 12 de fevereiro de 2016

*The first snow*



A neve branca no caminho de Jongin era iluminada pela inesperada lua cheia – que como ele havia lido, desde 1977 não se fazia presente naquela data. Enquanto abraçava o seu próprio corpo a fim de se aquecer mais, ele continuava a andar o mais rápido que podia para a casa do outro. “Brrr... que frio!” Ele reclamou. Precisava beber algo bem quente.
Ele enfim chegara. O rapaz de cabelos escuros deu uma risadinha ao ver a guirlanda decorando a porta de entrada; tocou a campainha. “Atenda logo...” Jongin resmungou para si.
Não demorou nada, a porta abriu-se e lá estava ele, com aquele ar de sempre estar entediado. Seus cabelos loiros ainda úmidos caiam pela face. “Seu rosto está vermelho...”
“Deve ser porque eu vim correndo da confeitaria até aqui, né?”
“E você trouxe o bolo?”
“Sim, Sehun.” Jongin levantou a mão, mostrando a sacola. “Agora eu posso entrar?”
“Claro.” O loiro deu-lhe passagem. Ao fechar a porta atrás de si, o dono do apartamento caminhou até a pequena cozinha, chamando o outro para acompanha-lo.
Jongin praticamente jogou-se em uma das cadeiras, soltando um longo suspiro de cansaço. “Agora você pode me explicar essa sua urgência para comer bolo? Você sabe que hoje é véspera de natal, não é? Eu também tenho vida!”
Sentado ao lado dele, Sehun pareceu não se importar com as reclamações do rapaz. “Vida? Você passa praticamente as 24 horas do dia naquela confeitaria, Jongin. Eu simplesmente fiquei com muita vontade de comer o red velvet que vocês servem lá, mas como já eram quase dez horas quando eu te mandei a mensagem, preferi que você trouxesse para mim.”
“Foi só... por isso? E pensar que eu passei mais de uma hora decorando esse bolo! Você já tem o que queria, Oh Sehun. Agora se me der licença, eu vou para minha casa.” Jongin se levantou irritado. Sehun realmente só queria o bolo? Ele nem sequer podia mentir dizendo que eles eram melhores amigos e seria bom passar aquele dia juntos? “Eu sou um idiota...”
“Ah, espera—” Ao tentar alcançar o apressado Jongin, Sehun enroscou sem querer seus pés nas pernas da cadeira e caiu literalmente de cara no chão.
Jongin rapidamente virou-se, assustado com o barulho da queda e se deparou com o rapaz: o rosto de frente para o chão, uma mão estendida como se ainda quisesse alcança-lo e as pernas dobradas, com a barra da calça enrolada a cadeira. “Sehun?”
“...”
Vendo que o outro não respondia, caminhou até ele e se abaixou de cócoras. Deu um leve toque com as mãos em seu ombro e o rapaz repentinamente levantou seu tronco com os braços. “É claro que não é só o bolo! Mas se eu não usasse isso como desculpa você não viri—”
“Ai, droga... Sehun!”
“Você não viria para—”
“Seu nariz está sangrando!”
“Eh?”
***
Sentado com as pernas cruzadas em cima do sofá, Sehun tinha a cabeça recostada em várias almofadas enquanto olhava para cima. Em seu campo de visão, um ainda emburrado Jongin apareceu com uma sacola de gelo na mão. “Coloque isso no seu nariz.” Resmungou, sentando-se ao lado dele.
“Hm...” O loiro gemeu. “Muito gelado!”
“Você queria o quê? É gelo, oras.”
“Aigoo, Jongin-ah. Deixa de ser grosso.”
“Não coloque um “ah” no meu nome! E eu tenho todo o direito de ser grosso, afinal, você me fez de idiota. E falando nisso, já é quase meia-noite. Eu vou passar o natal andando no frio enquanto eu volto para casa.”
“Não!” Sehun segurou no punho do rapaz que já se levantava. “Não foi só pelo bolo que eu te chamei, Jongin-ah.”
“Eu já disse para não colocar—”
“Deixa eu falar! Eu quase quebrei o nariz e você ainda não me ouviu!”
“Certo. Me solte então. Eu vou te ouvir.”
“Quem me garante que você não vai correr para a porta?”
“Você não confia em mim?”
“Quando você fica bravinho, não!”
“Bravinho? Porque no diminutivo? Agora eu sou uma criancinha?”
“Ok, a gente nunca vai parar de discutir assim.” Sehun suspirou. Tirando a sacola de gelo – já meio derretido – de seu rosto e colocando em cima da mesinha de centro, ele levantou-se, ficando frente a frente com Jongin.
“Como eu disse, o bolo foi só uma desculpa. Ultimamente eu sinto como se precisasse delas para justificar que eu quero te ver.”
“E por que você...?”
“Jongin-ah. Há quantos anos nós nos conhecemos?”
“Mas por que isso agora?”
“Só responda!”
“Er... a vida toda?”
“Exato. A vida toda. São vinte e dois anos de convivência. Primeiro por nossos pais serem amigos desde crianças, depois por termos sido vizinhos por mais de dezoito anos e nos formarmos juntos na escola. Você já é um pâtissier e eu ainda nem sei o que eu quero fazer, só fico andando de moto por aí... e a única certeza que eu tenho é que quero ter você sempre ao meu lado.”
Jongin sentiu seu coração bater mais rápido, mas logo colocou seus pensamentos no lugar. Provavelmente Sehun só estava tentando se redimir, afinal, como ele mesmo disse, os dois eram amigos desde sempre. “Sehun... você não precisa falar tudo isso só pra se desculpar.”
“Eu não estou me desculpando.” O rapaz enrugou o cenho. “Estou me declarando.”
“É o quê?”
“Acontece que eu nunca pensei no Jongin-ah apenas como o meu melhor amigo. Quando eu realmente entendi os meus sentimentos, eu decidi que não te contaria por nada, já que eu não queria te perder. Mas esse ano, no seu aniversário você me disse que era gay. Aquilo me deixou em choque, eu repensei milhares de vezes se eu deveria te contar ou não. E quando eu vi, o ano inteiro já havia passado... então é isso. Eu te amo.”
Boquiaberto, o moreno arregalou os olhos. Apesar de estar com o corpo incapaz de se mover tamanha era sua surpresa, em sua mente ocorriam incontáveis pensamentos e em seu peito o seu coração batia mais e mais rápido. Sehun acabara de lhe dizer que o amava, que nunca o viu apenas como um amigo; então... seus sentimentos eram recíprocos?
“Jongin, o seu rosto ainda está vermelho. Está com frio?”
“I-idiota! Não é pelo frio! Olha o que você acabou de me falar!”
“Que eu te am—” Sehun cortou sua fala ao ouvir o relógio cuco que havia na parede da sala os avisar que enfim era meia-noite.
O loiro ainda tinha a mão segurando levemente o punho de Jongin, e lhe fitava intenso. Aquele semblante sempre sério do loiro aos poucos se suavizou com o som do cuco. “Ah!” Exclamou. “Feliz natal, Jongin-ah.” O seu leve sorriso fez Jongin sentir suas bochechas ferverem ainda mais.
“Não coloque “ah” no meu nome!”
“Mas combina com você...”
“Não... não combina.” Jongin entortou os lábios.
A expressão de inquietude no semblante de Jongin o incomodou; talvez não devesse ter lhe falado o que sentia. “Er... vamos comer o bolo que você fez?” Ele disse, tentando mudar o assunto.
“Agora?”
“Já é meia-noite, certo? E é bom que de estômago cheio eu posso tomar um remédio para dor. Eu vou lá pegá-lo.”
“Eu vou pegar os pratos e os talheres então!”
“Eu posso trazer também.”
“Eu já disse que vou pegar!”
“Tudo bem então...”
Novamente na cozinha, o silêncio entre os dois não era confortável. Sehun pegou a caixa de bolo em cima da mesa e quando já virava-se para voltar à sala, Jongin enfim falou.
“...também.”
“Hm?”
“O que você falou antes... eu também.”
O rapaz retornou o bolo à mesa e cruzou os braços. “Feliz natal?”
“Você está mesmo brincando comigo, não é? Eu estou tentando dizer que eu te amo! Não só como meu melhor amigo... eu... eu sempre amei você.”
“Você...?” Jongin foi surpreendido pelo abraço apertado que Sehun lhe deu. “Meu pedido... foi atendido? Então esse Santa Claus existe mesmo!”
“Hã?”
“Você também gosta de mim dessa forma, né? Mesmo?”
“E-eu... eu já não disse?” O desconcertado Jongin desviou o olhar do rosto de Sehun. “Muito perto...”
“Jongin-ah...”
Irritado, o moreno já virou o rosto para Sehun. “Eu já não disse para—”
Jongin foi interrompido pelo toque dos lábios de Sehun sobre os seus. Surpreso de imediato, aos poucos o rapaz foi relaxando-se. Seus braços envolveram o pescoço do loiro, enfim, retribuindo o inesperado, porém desejado beijo. Ao se separarem, Sehun deitou sua cabeça no ombro dele, que sorrindo, lhe afagou os cabelos descoloridos; ele finalmente sentia-se aquecido.
“Ah... Sehun. Feliz natal também.”
Naquele 25 de dezembro, aqueles dois melhores amigos apaixonados enfim entenderam a tão falada “magia do natal”. Esse dia do ano em que até algumas das pessoas mais incrédulas se permitem sonhar; um dia para se passar com alguém que lhe é especial, para conversarem, comerem e trocarem presentes. E também, dia que finalmente mostrou aos dois que o presente mais importante que eles poderiam receber, sempre esteve dentro deles.
O amor. 

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